A esta altura, você provavelmente já ouviu falar sobre a aquisição que não está indo adiante e a disputa judicial que começa a surgir entre o Twitter, uma empresa que não pretendia ser comprada, e Elon Musk, que retirou sua oferta de compra da empresa.
No centro desse conflito está a questão do tráfego de bots, um assunto que conheço bastante. Nos últimos seis anos, meu trabalho tem sido liderar uma equipe de cientistas de dados que analisa interações na web para identificar bots, os aplicativos que eles têm como alvo e seus objetivos.
Em média, cerca de 2 bilhões de transações passam diariamente pela infraestrutura de defesa contra bots da F5, e já orientamos centenas de empresas de praticamente todos os setores sobre o tráfego de bots em seus ambientes.
Com base nessa experiência, o tráfego de bots do Twitter é quase certamente muito maior do que a empresa declarou publicamente e ainda maior do que acredita internamente. Para ser justo, isso provavelmente se aplica a todas as organizações que são alvo de bots mal-intencionados ou indesejados, mas não utilizam a melhor tecnologia disponível para eliminá-los.
Veja algumas das coisas que aprendemos sobre bots nos últimos anos e por que foi tão fácil chegar a essa conclusão.
Os bots sempre tentam realizar alguma coisa.
Uma organização que permite que os clientes façam login em contas online verá tentativas automatizadas de explorar o aplicativo de login para cometer algum tipo de fraude. Uma organização que oferece preços especiais online verá o uso de automação para coletar preços, tarifas e valores para revenda. Há dezenas de exemplos como esses.
No caso do Twitter, um dos principais incentivos é conquistar seguidores. Existe a percepção de que, quanto mais seguidores uma pessoa tem, mais interessantes devem ser seus tweets e, de fato, contas com mais seguidores tendem a ser mais influentes.
É no objetivo de ampliar a influência que esse modelo pode se tornar preocupante. Imagine a influência que você poderia exercer controlando de forma automatizada milhões de contas do Twitter que interagem com as contas reais de figuras públicas e cidadãos comuns. Isso provavelmente atrairá agentes estatais altamente motivados e com recursos praticamente ilimitados.
Se houver incentivo e meios, haverá mais bots.
Não só há um enorme incentivo no Twitter, como também existem os meios para isso. Há inúmeros serviços na internet (incluindo mercados da dark web/deep web) que oferecem contas do Twitter, seguidores, curtidas e retuítes mediante pagamento.
Para fins de pesquisa, testei esses serviços em uma conta do Twitter que criei. Ao continuar os testes, por menos de US$ 1.000, a conta agora tem quase 100 mil seguidores. Certa vez, publiquei algo completamente sem sentido e paguei seguidores para retuitá-lo. E eles retuitaram. Essas contas têm nomes como TY19038461038 e também seguem muitas outras contas.
Comecei a me perguntar como seria fácil criar uma conta no Twitter usando automação. Não sou programador, mas pesquisei frameworks de automação no YouTube e no Stack Overflow. Acontece que é fácil.
Levando meus testes a um novo patamar, escrevi, ao longo de um fim de semana, um script que cria contas no Twitter automaticamente. Meu script, bastante rudimentar, não foi bloqueado por nenhuma contramedida. Não tentei alterar meu endereço IP nem meu agente de usuário, tampouco fiz qualquer coisa para ocultar minhas atividades.
Se é tão fácil assim para uma pessoa com habilidades limitadas, imagine como é fácil para uma organização formada por indivíduos altamente qualificados e motivados.
As empresas frequentemente subestimam a dimensão do problema com bots.
Há alguns anos, uma rede social dos EUA implementou a solução de defesa contra bots da F5 e descobriu que 99% do tráfego de login era automatizado. Sim, você leu certo: 99%.
Na verdade, constatamos que, em muitas aplicações, de 80% a 99% do tráfego é automatizado. Essas constatações não são casos isolados — elas são comuns em muitas organizações (varejistas, instituições financeiras, empresas de telecomunicações e restaurantes de serviço rápido, para citar alguns exemplos).
É claro que essa notícia foi devastadora para a empresa. Eles sabiam que tinham um problema com bots, mas nunca imaginaram que fosse tão grave. As implicações logo ficaram claras. Apenas uma pequena fração das contas de clientes pertencia a pessoas reais. O restante eram bots.
Para as empresas de redes sociais, o número de Usuários Ativos Diários (DAU), que corresponde a um subconjunto de todas as contas, desempenha um papel importante na avaliação. A divulgação de que o DAU era apenas uma fração do que imaginavam fez com que o valor da empresa caísse significativamente.
As empresas que se beneficiam de bots nem sempre querem saber.
Pode-se argumentar que teria sido melhor para os acionistas daquela empresa se a organização nunca tivesse descoberto a verdade e, em vez disso, simplesmente afirmasse que menos de 5% de seu tráfego era gerado por bots.
Essa pressão não se aplica apenas às redes sociais cuja avaliação é determinada pelo número de usuários ativos diários (DAU). Ela também afeta empresas que vendem produtos de alta demanda e estoque limitado, como ingressos para shows, tênis, bolsas de grife ou o próximo iPhone.
Quando esses produtos se esgotam em poucos minutos por causa de bots, apenas para serem revendidos no mercado secundário por preços extremamente inflacionados, isso irrita os clientes. Ainda assim, a empresa consegue vender rapidamente todo o seu estoque.
Nesses casos, uma empresa pode querer dar a impressão de que está fazendo tudo o que pode para impedir os bots, embora, nos bastidores, faça muito pouco.
Não é só o Twitter — o problema dos bots é um problema de todos.
Quando considero o volume e a velocidade da automação que vemos hoje, a sofisticação dos bots que um determinado conjunto de incentivos provavelmente atrairá e a relativa falta de contramedidas que observei em minha própria pesquisa, só posso chegar a uma conclusão: muito provavelmente, mais de 80% das contas do Twitter são, na verdade, bots. Essa, é claro, é a minha opinião.
Tenho certeza de que o Twitter está tentando impedir automações indesejadas em sua plataforma, como qualquer empresa. Mas é provável que esteja lidando com automações altamente sofisticadas, criadas por agentes extremamente motivados. Nessas circunstâncias, combater bots não é algo que se possa fazer por conta própria. Isso exige ferramentas igualmente sofisticadas.
No entanto, há algo muito mais importante em jogo aqui. O problema dos bots é maior do que qualquer receita publicitária, preço de ações ou avaliação de uma empresa. Permitir que esse problema persista ameaça toda a base do nosso mundo digital.
Permitir que bots se proliferem a partir de qualquer lugar resulta em fraudes em larga escala que custam bilhões. Isso arruína a vida das pessoas e fornece ferramentas para que países e organizações mal-intencionadas disseminem desinformação, criem conflitos e até influenciem processos políticos. Isso significa mais fraudes, mais desinformação e mais conflitos, afetando nossa capacidade de nos comunicar e de nos relacionar uns com os outros em todo o mundo.
Se nós, como sociedade, quisermos usufruir de todas as conveniências, do conhecimento, do entretenimento e de outros benefícios da Internet e do nosso mundo móvel e conectado, precisamos tomar medidas contra o tráfego automatizado on-line. A única maneira de combater os bots é usando nossa própria automação altamente sofisticada.
Por Dan Woods, diretor global de inteligência da F5
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