Para realmente promover o avanço da profissão de cibersegurança, precisamos de uma maior diversidade de vozes e perspectivas. E, para isso, precisamos que mais mulheres e pessoas com identidades de gênero sub-representadas avancem em suas carreiras e assumam posições de liderança. É por isso que tenho o prazer de apresentar minha recente entrevista com Kara Sprague, vice-presidente executiva e diretora de produtos da F5.
Para este sexto post da série “Uma jornada rumo à equidade de gênero”, conversei com Kara sobre como ela chegou à área de segurança cibernética, como lida com microagressões e quais são seus conselhos para mulheres e outros grupos sub-representados que estão construindo uma carreira em segurança cibernética.
Desde o início, Kara tem sido uma verdadeira líder. Ela conquistou não apenas um, mas dois mestrados pelo Massachusetts Institute of Technology — um em engenharia elétrica e outro em tecnologia e políticas públicas. Trabalhou por 13 anos na McKinsey & Company, onde ocupou diversos cargos de liderança na área de tecnologia da empresa. Além disso, canalizou sua paixão por promover a diversidade e a inclusão em funções de tecnologia ao integrar o conselho da Girls Who Code.

Hoje, Kara supervisiona todo o portfólio de soluções da F5 para segurança e entrega de aplicações em ambientes multinuvem. E, mesmo com essa função exigente, ela é faixa-preta de terceiro grau em taekwondo e reserva um tempo de cinco a seis dias por semana para relaxar e se exercitar. Suas atividades preferidas? Treinamento intervalado de alta intensidade, musculação, exercícios aeróbicos, trilhas, ciclismo, esqui e caminhadas com raquetes de neve. Ela também gosta de viajar e conhecer novos lugares, mesmo que seja apenas uma pequena aventura de fim de semana.
Rachael: Por muito tempo, eu quis ser curadora de uma galeria em um museu de arte. Porém, quando me mudei para Seattle, tive meu primeiro contato com a tecnologia e acabei encontrando meu caminho na área de segurança cibernética. Você sempre teve a intenção de trabalhar com segurança cibernética?
Kara: Não, não especificamente. Antes de ingressar na F5, explorei muitas áreas da tecnologia ao longo da minha carreira como engenheira e consultora — engenharia de software nas camadas de aplicação e middleware, engenharia de testes de hardware, engenharia de firmware, estratégia de produtos, entrada no mercado, desenvolvimento de negócios, fusões e aquisições, nuvem, dados e análises, segurança cibernética, tecnologia para o consumidor, tecnologia empresarial, mídia, telecomunicações, entre outras.
A F5 já aspirava a se tornar uma empresa de destaque em segurança cibernética quando passei a integrar a equipe executiva, em 2017, após 13 anos como consultora na McKinsey. Na época, decidi ingressar na F5 por acreditar na estratégia que ajudei a desenvolver com a equipe executiva durante meu trabalho como consultora, pelas pessoas da F5 que conheci ao longo desse processo e pela liderança de François, que coloca as pessoas em primeiro lugar.
Rachael: Quando comecei a trabalhar com segurança cibernética, não percebi o quanto esse setor realmente é dinâmico. O cenário de ameaças está em constante evolução, mudando num piscar de olhos. Se você pudesse voltar aos seus primeiros dias na área de segurança cibernética, que conselho daria a si mesma?
Kara: Nada é simplesmente seguro ou inseguro. Há diferentes níveis, e as concessões são reais. O desenvolvimento de soluções eficazes de cibersegurança exige que você leve em consideração um amplo conjunto de fatores, incluindo o perfil de risco das ameaças, as capacidades e o tempo dos usuários finais, além das concessões em relação a outros requisitos de design, como desempenho, sustentabilidade e custo.

Rachael: No Relatório Global sobre a Desigualdade de Gênero de 2023 do Fórum Econômico Mundial, observa-se uma “queda rumo ao topo” entre as mulheres. À medida que elas avançam para cargos de liderança sênior, sua representatividade diminui. Por exemplo, o relatório aponta que as mulheres ocupam 46% dos cargos de nível inicial, mas, quando se trata de cargos executivos, esse percentual cai para 25%. Como diretora de produtos, que conselho você daria a outras mulheres e pessoas de outros grupos sub-representados interessadas em cargos de liderança — especialmente na área de segurança cibernética?
Kara: Cultive uma mentalidade de “white hat”: estude, encontre falhas e corrija-as. Essa mentalidade tem sido muito útil para elevar o nível da segurança dos nossos produtos e da nossa plataforma na F5. Como abordagem geral para a resolução de problemas, ela também se aplica bem a uma ampla variedade de desafios fora da área de segurança cibernética. Especificamente em relação à “queda rumo ao topo”, buscar compreender profundamente as dinâmicas presentes ao longo da carreira de uma mulher que levam a essa queda me ajudou a conduzir minha própria carreira com consciência e propósito. Essa consciência e esse propósito me deram condições de superar várias das barreiras que as mulheres enfrentam em sua progressão profissional. E espero consertar o maior número possível de “degraus quebrados” na escada rumo ao topo para outras mulheres.
Rachael: O estudo Mulheres no Ambiente de Trabalho de 2023 publicado pela LeanIn.Org e pela McKinsey menciona que “o ambiente de trabalho é um campo minado psicológico para muitas mulheres”. Como mulher na área de segurança cibernética, você já sofreu microagressões ou se sentiu desconfortável por ser a única mulher na sala?
Kara: Sim, já passei por várias situações em reuniões nas quais minha voz não foi ouvida ou minhas ideias não foram reconhecidas como minhas. Minha forma de lidar com essas microagressões é registrá-las mentalmente, mas sem deixar que atrapalhem a busca por um resultado positivo na reunião. Se sua contribuição foi ignorada, mas você ainda acredita firmemente que ela pode ajudar a avançar a pauta da reunião, fale mais alto. Se sua ideia foi reconhecida, mas atribuída a outra pessoa, encontre uma forma de esclarecer a autoria sem interromper o andamento da discussão — por exemplo, desenvolvendo ainda mais a ideia ou conversando com as partes interessadas após o término da reunião.

Rachael: Quais mulheres poderosas você admira e por quê?
Kara: Ruth Bader Ginsburg. Ela dedicou sua vida profissional à promoção da equidade para as mulheres. Taylor Swift. Ela é uma força extraordinária para o empoderamento feminino, gerando um impacto econômico mensurável, alcançando um sucesso sem precedentes e demonstrando uma incrível visão de negócios. Malala Yousafzai. Ela sacrificou sua juventude, privacidade e segurança para se tornar uma defensora dos direitos humanos e da educação de mulheres e meninas.
Rachael: Gosto desses exemplos por vários motivos, mas principalmente porque eles reafirmam que mulheres poderosas não se encaixam em um padrão. Como a comunidade de tecnologia pode apoiar melhor os grupos sub-representados na área de cibersegurança?
Kara: Há muito que a comunidade de tecnologia deve fazer. Podemos criar um ambiente mais diverso e inclusivo oferecendo oportunidades de formação em tecnologia a possíveis candidatos. Podemos oferecer programas de mentoria e patrocínio para mulheres e integrantes de grupos sub-representados, preparando-os para progredir na carreira. Podemos firmar parcerias com grupos comunitários para capacitar pessoas interessadas em atuar na área de cibersegurança. E podemos defender uma maior representatividade na mídia.
Rachael: Muito obrigada por dar voz a um tema tão importante. Ainda há muito mais a explorar, mas, por enquanto, gostaria de deixar alguma consideração final ou palavra de sabedoria?
Kara: A prática é o único caminho para dominar qualquer coisa. São necessárias aproximadamente 10 mil horas para se tornar mestre em algo. Para o que a maneira como você está usando seu tempo agora está preparando você?
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